quinta-feira, 22 de março de 2018

VOCÊ CONSEGUIU, PARABÉNS

Por Gabriel Barban

O homem do meu lado no metrô disse que a semana está começando e que “só os fortes chegarão até o final”.
Ele falava ao telefone e obviamente não comigo. Não tenho amizade com pessoas que gostam de empregar tal sentido à palavra forte.
Devo ter passado uns 2 minutos pensando na frase que mais parecia um mantra de autoajuda.
Chega! Seja lá o que isso quer dizer, não sou forte nem pra refletir sobre uma citação, quanto mais para ir até o final, pensei.
O sinal telefônico ia ficando cada vez mais baixo, enquanto a voz do ilustre passageiro ia só aumentando.
-Caiu.
Disse ele em tom de tristeza e repousou as costas na parte de trás do banco.
Olhei a estação atual: restavam ainda seis para o meu desembarque.
-Você paga uma fortuna nisso daqui e ele não funciona.
Disse o senhor, já um pouco conformado com toda aquela situação tecnológica-constrangedora.
-Não disseram que iam colocar antenas nas estações? Não disseram?
Olhou para mim.
Fiz uma expressão de desânimo e tentei parecer neutro, enquanto olhava novamente as estações. Faltavam quatro.
Realmente o centro é um pouco longe.
Entra um ambulante: gritaria, vendas, guardas e algumas risadas. Nada fora do comum. Essa cidade tem dessas coisas e você logo se acostuma.
-Será que eles pagam imposto?
Perguntou uma mulher ao vento e abotoou o último botão superior de sua camisa listrada.
Três estações para mim.
Comecei a ficar com medo. Será que aquele cara ia descer na mesma estação que eu? Ele era meu vizinho e eu nunca percebi? O quão desligado estou eu do mundo?
O vagão esvazia e a hora do rush logo não parece ser mais a hora do rush, tanto assim. Todo mundo com seu celular fazendo qualquer coisa. Qualquer coisa que fosse útil. Útil para fazer com que o tempo passasse mais rápido.
Do que adianta chegar ao final se você não viveu o caminho?
Passar todo o tempo se entretendo com uma tela de vidro parece ser o jeito mais fácil para manter o rumo.
Difícil mesmo é brigar, é rir, é reclamar do que está errado, reclamar do tempo frio e do frio das pessoas.
É sentir.
Ser forte pra mim é isso: é aceitar essa nossa natureza de não ser forte o suficiente para superar tudo.
E tudo bem. É como dizem os caras do Codinome Whinchester: tome mais remédios para não se atirar de um prédio.
E quem sabe você chegará até o fim.

terça-feira, 6 de março de 2018

UM PARÁGRAFO

Por Alexandre Passos Bitencourt

Para mim, escrever nunca foi uma atividade prazerosa, talvez, por isso não apenas eu, mas muitos preferem não escrever. Gosto mesmo é de ler, a leitura sim, é uma atividade que aspira prazer, pelo menos para mim. Escrever é penoso, é angustiante. Não mais que um parágrafo, claro, o motivo o qual me levou a escrever esse parágrafo poderia preencher várias linhas, isso se caso eu tivesse o domínio da arte da escrita, para poder fazer a organização das palavras, concatenando cada uma em seu devido lugar. Contudo, há quem não pense assim, há até aqueles que vivem disso, que até se consideram profissionais na arte dessa linguagem. Porém, existem também os que preferem se expressar por meio de imagens e, os que são como eu, que preferem mesmo é se aventurar no mundo da leitura. Cada um com o seu dom. Pois bem, para não irritar ainda mais o leitor com a minha inabilidade no tocante ao uso das palavras, tentarei descrever duas rações que me levaram a arriscar-me nessa difícil tarefa. Ambas aconteceram em fevereiro do corrente ano, parece simples, não fosse o fato da pouca afinidade com a leitura, por parte não somente dos estudantes do ensino básico, mas de uma considerável porção da população adulta. Recebi da Paloma um convite para eu poder ir à “Exposição Padre Cícero, cordel e artesanato”, junto ao convite ela relatou que ao saber dessa exposição, lembrou-se de mim, pois segundo ela, foi eu quem a introduziu ao fantástico mundo da leitura do cordel. Logo depois, na semana seguinte, recebo do Gabriel, um belíssimo email no qual ele descreve a importância do ato da leitura, como uma das formas de trazer significado a um dia banal e sem muitos acontecimentos. Modéstia parte, sinto-me lisonjeado com o carinho de vocês. Que pena que tive mesmo que reduzir a grandeza do gesto externalizado por vocês em um ínfimo parágrafo, até que tentei ir além desse parágrafo, mas fui vencido, vencido pela incapacidade de lidar com as palavras, de forma a poder torná-las claras ao leitor. Nesse caso, paro nesse parágrafo. 

quinta-feira, 1 de março de 2018

NÃO SE DEIXE LEVAR

Por Gabriel Barban 

- Você deixou sua revista cair no chão. Essas foram as últimas palavras de um humano que ouvi hoje. O resto foi só barulho. O comercial da Rádio disse que eu tenho que procurar um psicólogo. A atendente da farmácia me indicou um remédio para concentração. O mundo nunca foi tão caótico. - Desculpe, estou buscando exatamente o contrário. Respondi e fui embora. Anotei o endereço daquela farmácia - nunca mais volto ali. Querem que você se vista de acordo, fale de acordo, ouça as músicas de acordo. O uniforme utilizado durante o primário é só um treino. A vida adulta lhe impõe várias outras convenções que diferentemente da escola, ainda fazem você defender elas. Trabalhe e ganhe dinheiro, mas não tanto porque você quer ir pro céu e lá em cima eles não gostam de gente gananciosa. Tirando o seu pastor e as pessoas da TV, ninguém com muito dinheiro costuma passar a eternidade com o Divino. Permaneça íntegro e não se entregue aos vícios. Se for homem a gente até aceita que você tome alguma cerveja de vez em quando. Maconha nem pensar! Dane-se se a primeira causa mais danos que a segunda. O que vou dizer para os meus filhos? Não seja preconceituoso, isso saiu de moda. Mas se você ver dois homens se beijando saia de perto imediatamente. Afinal você não tem nada contra, mas também nada pode fazer se o ato faz com  que você tenha vontade de bater com uma barra de ferro neles. Não veja defeito em tudo. Problematizar é coisa de comunista. Não seja comunista. Vá dormir cedo para não perder o horário amanhã e o seu chefe não lhe mandar embora. Agrade o seu chefe. Sua filha terá o primeiro dia de aula dela mês que vem, mas a data coincide exatamente com a entrega de um projeto no trabalho e você é adulto, portanto sabe de suas responsabilidades. Não é? Não escute música alta aos domingos. Não pratique a libertinagem. Todos concordamos que um Happy Hour durante a semana está liberado, afinal a tensão que adquirimos é grande demais e somente a cerveja que custa 8 reais no bar ao lado do escritório, é capaz de aliviar. Vá à igreja no mínimo uma vez por semana. E no máximo também. O ambiente que você frequenta é formado por intelectuais cristãos, mas não fanáticos! Ser fanático é coisa de gente alienada. A gente não é alienada. Isso é coisa de comunista. Não aceite em hipótese alguma que alguém defenda bandido na sua presença. Quem faz isso é o que mesmo? Não vou repetir. Direitos humanos para humanos direitos.  - Tem que morrer um vagabundo desses, diz um desconhecido que para ao seu lado na banca enquanto você e ele veem uma manchete estampada no jornal. Siga sua caminhada e tenha uma vida normal, como um ser humano normal.  Você não precisa de muito, você precisa apenas se manter concentrado.