domingo, 13 de maio de 2018

ÂNIMOS PASSAGEIROS

Por Gabriel Barban

Está chovendo hoje na cidade, mas as ruas estão cheias. Cheias de carros, humanos e cachorros. Como tem cachorro por aqui.
Não consigo me acostumar com essa sensação de que algo está para acontecer.
Eu fico ansioso com a ansiedade e isso me aflige.
Acho que os próximos anos serão bons. A televisão disse que a safra de julho será histórica e o motorista do ônibus que tomei mais cedo disse a uma passageira que o bairro irá receber duas novas linhas.
Ontem avistei a nova vizinha do andar de cima subindo as escadas. Um tipo bonita: olhos pequenos e pernas grandes. Aparentemente frequentava mais academias e escadas, do que bares. Fiquei um pouco frustrado, mas logo passa.
Quanta coisa acontecendo!
Esses dias liguei na editora.
-Boa tarde, meu nome é Gabriel Barban.
(Silêncio)
-Bom… estou ligando para saber se já tem alguma data para o término da avaliação da segunda edição, que enviei da minha obra. Com quem falo?
-Você fala com Vanessa, respondeu-me uma voz que não aparentava estar em um bom dia.
-Olá Vanessa. Pode me ajudar por favor?
Perguntei com uma educação poucas vezes presenciada.
-Não posso, a responsável está almoçando e você terá que ligar mais tarde.
Olhei no relógio que marcava 15h52.
Suspirei.
-Qual o nome da responsável por favor, Vanessa?
-É a Santana.
-Ok, ligarei mais tarde e falo com ela. Obrigado.
Em uma tentativa de tentar provar para mim mesmo que a Vanessa não havia tirado minha sanidade, coloquei o telefone no gancho com extremo cuidado.
Abri a janela novamente e a chuva havia dado lugar a uma garoa fina.
Fui então a cozinha, preparei um chá, cortei uma belíssima rodela de limão e sentei para ler uma revista sobre tecnologia.
Me senti como um sexagenário à beira de um colapso mental. Uma pena que só fiquei pensando na Vanessa.
Ás vezes, quando a gente estiver se sentindo dono do mundo, a gente só precisa depender da Vanessa. Há muitas por aí, pode apostar.
Liguei umas horas depois. A avaliação estava pronta e já havia sido enviada para meu e-mail.
Irei lê-la no sábado, quem sabe estará sol.

sábado, 5 de maio de 2018

DE BURACO EM BURACO

Por Fernando Rocha



Hoje, quando despertei a velha pergunta, mais uma vez, começou a martelar em minha cabeça, levantei sem vontade, mais uma vez, instintivamente meus pés encontraram os chinelos, a luz do rádio-relógio dissipava o escuro do quarto, não sei se é o meu paladar, mas o café e o pão andam mais gosto, assim como a paisagem da janela e seu pôr-do-sol que mais irrita do que agrada, não tirei uma fotografia, guardarei na memória que seleciona e apaga o que não é útil. Quem se importa com a beleza? Vou responder ao facebook, quando acessar minha conta, que estou sentindo nada, quais propagandas irão direcionar a mim? Compre já seu neo-niilismo, seja mais um blasé, a embalagem de intelectual é por nossa conta!

O ônibus está demorando, ontem, eu estava prestes a atravessar rua, ele do outro lado, sem ninguém no ponto para dar o sinal para pará-lo, passou, me deixou, eu tão acostumado ao abandono, senti que o tempo vive nos pregando peças, este quebra-cabeças com segundos, minutos e horas, gargalham de nós, com o mesmo desprezo que olhamos para os farelos da fatia de bolo que comemos. Aquelas partes minúsculas que não importam mais, após serem desprendidas do todo.

Sinto-me assustado com o bom dia do cobrador, não faz parte do hábito de um cidadão do caos cinza de SP, dirigir a palavra a um estranho, ainda mais de maneira gentil.

É no silêncio que o importante é tecido, há poucos dias meu pai, enquanto eu dormia no sofá de sua casa, trocou o chinelo que eu iria usar, porque o que eu tinha pegado estava sujo segundo ele, e se eu não estivesse mais aqui, faria falta, a delicadeza é uma coisa que só os homens cuidadores conhecem.

O número de pessoas que embarcam é maior do que os que descem. O transporte não imita a vida que equilibra por meio de milagres e das desgraças o número ideal de passageiros a serem transportados.

Todos seguiram e eu fiquei ilhado, estagnado em minhas convicções, a ilusão da certeza de que nada é certo e tudo é vão. Está chegando o ponto, a hora de descer, pisar na calçada e esperar o momento em que o semáforo vai me indicar a hora da travessia, hora de iniciar o trabalho, o casal que dormia sob a cobertura do comércio, não está mais lá, há meses não os vejo, sinto falta do diálogo rápido, como a agenda da rotina nos exige sempre mais velocidade e perfeição.

Vitor Brauer canta dentro da minha cabeça, que reproduz as canções que tenho ouvido no Youtube, uma experiência, coisa rara em nosso tempo, ele é o grito que espanta a pasmaceira do nosso tempo, a sensação de que nada faz sentido, como o melhor Wilde está em De profundis, a arte que se não é realizada torna-se um incômodo para seu criador, impedindo a vida de seguir em frente, é a arte mais interessante.

Um passo de cada vez para adiar o buraco do final, este em minha frente conseguirei saltar, enfrentar, mas o derradeiro é invencível, engoliu grandes líderes, pensadores, artistas, anônimos, ricos, mendigos. Penso no bombeiro que olhou nos olhos do homem que não conseguiu salvar, assim como a atriz que viu seu colega de trabalho lhe oferecer seu último olhar aqui na terra. Tive um professor que resolveu dar o fora, contou que uma de suas tias estava pertinho do fim, queria muito fumar um cigarro, mas estava proibida pelos médicos, ele desrespeitando a proibição, botou um cigarro na boca dela e viu a luz dos seus olhos se apagarem. Preencho o espaço para entrada do ponto e o buraco que sobra é para a saída, caso haja alguma hoje para mim.