quinta-feira, 19 de julho de 2018

REPROVADO NÃO, REPROVARAM-ME

Por Alexandre Passos Bitencourt


                     Fonte: Texto visual adaptado de: http://blogs.atribuna.com.br/euestudocerto/2017/04/aprovacao-e-reprovacao-como-lidar/

Aprovação e reprovação são dois termos antagônicos, na verdade podem ser classificados por muitos como pertencentes a dois extremos. O primeiro denota qualidade positiva, independentemente da situação a qual ele é empregado é sempre visto como alguma coisa boa a ser comemorada, festejada por alguém, enquanto que o segundo pertence a outro polo e, nesse caso, como algo que apresenta características negativas. Até aí não vejo nenhum problema, pois como signo linguístico, cada palavra é carregada de significados. O objetivo deste texto, no entanto é apresentar um possível questionamento para o léxico “reprovação”, mais notadamente à forma como ele é, às vezes, empregado para estigmatizar certas pessoas, principalmente, no contexto escolar.

Durante muito tempo carreguei o estigma de ter sido reprovado na 6ª série do ensino fundamental. Acreditei piamente quando no final do ano letivo me disseram que eu tinha sido reprovado em matemática, claro, à época nada poderia ter sido feito para reverter tal situação, uma vez que a escola enquanto instituição constituída com amparo legal do estado tinha todos os direitos para tomar tal posição, baseada no parecer do professor e, esse que, valendo-se do poder concedido pela escola através de seu projeto pedagógico, emite um conceito de aprovado ou reprovado ao aluno, geralmente tendo em vista pelo menos dois  princípios (1) sua formação ideológica (2) e sua concepção de educação.

Hoje mais do que nunca tenho absoluta certeza de que não fui reprovado, mas sim, reprovaram-me. Se no decorrer do ano letivo obtive mais de 75% de frequência e aprovação em cerca de 93% das disciplinas escolares da época (que na verdade não houve muita mudança com o senário atual), até eu que à época fui reprovado em matemática me arrisco em afirmar que há uma enorme inadequação no percentual dessa conta. Por isso reitero, não fui reprovado, reprovaram-me. Quantas vezes não somos reprovados por não estarmos enquadrados nos padrões estabelecidos pela sociedade.

O que quero dizer é que nem sempre a reprovação significa fracasso ou incapacidade por parte de quem foi "reprovado", haja vista que dependendo do contexto ela, simplesmente, pode ter sido imposta ao sujeito. A reprovação também pode estar ligada à questões de desigualdades sociais, quando milhares de estudantes brasileiros egressos de escolas públicas, tiram notas baixas no Enem ou são "reprovados" em vestibulares de Universidades conceituadas (isso quando participam, pois a maioria nem se inscrevem para esses exames), é porque, infelizmente, não tiveram oportunidade de frequentarem escolas cujo objetivo é treinar o aluno para saber fazer tais exames, ou não são filhos de famílias que possuem algum tipo de capital cultural, nesse caso, fica fácil "reprová-los", pois além de não terem sido treinados para tal objetivo, são filhos de famílias que geralmente vivem na exclusão, por isso, têm bastante dificuldade para poderem acessar aos bens culturais disponíveis.

Portanto, a reprovação pode até ter sentido negativo, mas na maioria dos casos em que ela ocorre no contexto educacional não é culpa ou incompetência do sujeito. Ela pode ocorrer, inclusive, por questões externas a ele.

2 comentários:

  1. Alexandre, meu mestre, uma vez pensei sobre isso, tracei mentalmente o perfil dos reprovados da unidade em que trabalho, comparei com alguns alunos que tinham avançado para as séries seguintes, numa formação o professor orientou algo semelhante, achei bom porque vi qeu não era viagem minha. Há muitas questões aí, tantas qeu não cabem no espaço deste meu vago comentário...

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  2. Oi Fernando, meu caro, ano passado conversei com o prof. Ocimar da USP que estuda avaliação, segundo ele, quando a escola reprova um aluno ela tira a oportunidade dele/dela ir pro ano seguinte e ter acesso a novos gêneros textuais e poderia com isso ampliar seu letramento. Certamente há várias outras questões, é um tema polêmico, penso que existem mais controvérsia do que consenso a respeito da reprovação. O texto é bastante superficial, a ideia é apenas abrir provocações sobre o tema. Acredito que é um tema que precisa ser melhor discutido nas escolas. Pelo menos hoje tenho consciência que não fui reprovado, reprovaram-me...

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