domingo, 9 de setembro de 2018

LIVROS SEM TEXTO

Por Alexandre Passos Bitencourt


                                       Imagem fotografada pelo autor em uma sala de leitura de uma Escola Municipal da Cidade de São Paulo.

As pessoas analfabetas do século XXI serão aquelas que não saibam construir narrativas com imagens.
(BIGAS LUNA, diretor de cinema. El País, 13 de fev. de 2013)

Nas obras visuais, a imagem é o próprio texto.
(FERNANDES, 2017, p. 147)

O objetivo deste pequeno texto é discutir o "conceito de texto" apresentado na imagem acima, visto que ela se encontra numa sala de leitura de uma escola de ensino Fundamental, logo, pode contribuir para fortalecer aos alunos apenas uma concepção de texto. Ou seja, o que se pretende é discutir o conceito de texto além da tradição, como forma de se buscar uma possível contribuição para a promoção dos multiletramentos.

O que na verdade significa livros sem texto? Para compreender-se tal questão é preciso, primeiramente, entender-se o que é um texto e, claro, não é tarefa fácil, dadas as inúmeras definições que apontam significados a um texto. O Dicionário Houaiss Conciso (2011) define texto como: “conjunto de palavras, frases escritas, trecho ou fragmento da obra de um autor”, já o Dicionário mini Aurélio (2005) apresenta texto como: “as palavras dum autor ou livro, palavras citadas para demonstrar alguma coisa”, e o Dicio Dicionário online de Português apresenta pelo menos oito definições para texto, sendo que, todas relacionam texto, às palavras escritas.

Partindo-se das definições de texto apresentadas no parágrafo anterior, é possível afirmar que o conceito de texto que aparece na imagem objeto de discussão aqui, pode ser situado a partir de uma concepção tradicional, e até mesmo limitada, reforçada pelo discurso pedagógico que concebe texto como um conjunto de palavras escritas por algum autor. Nesse sentido um livro construído a partir de imagens com narrativas próprias, mas sem texto verbal constitui-se como um livro, porém “sem texto”. Segundo Fernandes (2017), no Brasil o discurso pedagógico, dadas as inúmeras teses e dissertações na área da educação, concebe esses livros ditos “sem texto”, apenas como pretexto para o treino da produção verbal.

Halliday (1989) define texto como uma instância do processo e produto de significado social em um contexto particular de situação, ou seja, aqui é possível perceber-se uma visão mais ampla do conceito de texto, embora não seja uma definição única e verdadeira para texto, vai além do conceito reducionista de texto como conjunto de palavras escritas, aqui é possível caracterizar texto como, por exemplo, verbal, não verbal, imagético, oral, etc. Para Bitencourt (2018) com base no trabalho de Halliday (1989), Halliday e Matthiessen (2004), Kress e van Leeuwen (2006) e Painter, Martin e Unsworth (2013), entre outros, o texto escrito é caracterizado como verbal e o imagético como visual, ambos com possibilidades de leitura.

Frente ao exposto pode-se concluir que a definição de texto pode ir além do que se encontra nos dicionários de língua portuguesa, bem como no discurso pedagógico. Uma imagem possui narrativa própria que pode apresentar características, inclusive, do seu contexto de produção, sendo assim, ela é um texto. E sendo texto, a imagem, não deve ser utilizada no contexto escolar apenas como pretexto para produzir texto verbal nem tampouco como objeto a ser interpretado, mas sim, como texto carregado de elementos discursivos que pode servir para a construção de sentido ao aluno.