domingo, 21 de julho de 2019

A FOME NOSSA DE CADA DIA

Por Alexandre Passos Bitencourt


O que significa ter fome? É possível descrevê-la se o sujeito nunca a sentiu? A partir destas duas questões, tentarei fazer uma reflexão sobre a urgente e parece que crescente situação que tem afetado milhões de pessoas no Brasil atualmente, a fome, segundo dados divulgados pela ONU recentemente. Não tenho nenhuma pretensão em explicar nesse texto a fome em sua essência, já que não a conheço. Pois, parece-me que passar fome excede, simplesmente, a vontade de comer algo. Em o conto, Um artista da fome, Kafka (2015) sinaliza ao se referi a fome que “não há como torná-la compreensível a alguém que não a sente”. No entanto, não significa que não se deva reconhecer a sua existência que, infelizmente, tem afetado no Brasil e no mundo milhões de pessoas.

                                              Imagem: Mariana Sanches/BBC News Brasil

A imagem acima faz parte de uma reportagem publicada em o Globo no dia 15 de julho de 19 por Paula Adamo Idoeta e Mariana Sanches, BBC, com o título: Sem merenda: quando férias escolares significam fome no Brasil. Em 19 de julho de 19 o então presidente da República Jair Bolsonaro em um café da manhã com jornalistas estrangeiros diz que: "Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não". Conferir em UOL NOTÍCIAS.

A partir do que já foi dito anteriormente neste texto, é possível afirmar que o então presidente fala de um lugar, ou seja, de quem talvez nunca tenha passado fome algum dia em sua vida, logo, não compreende o significado da fome. Até aí tudo bem, seria uma fala cotidiana (embora não seja aceitável) se proferida por uma pessoa comum. A problemática se agrava quando se percebe que o presidente da República se apresenta diante vários assessores para um café da manhã com jornalistas internacionais, como se fosse uma pessoa comum numa conversa de boteco com amigos após uma “pelada”. Sugestão: a meu ver, o presidente precisa conhecer melhor a realidade do país, ver, por exemplo, a imagem a seguir de uma família que convive com a fome no Brasil, que contrasta com o que pensa e afirma o atual presidente.

                         Imagem disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/brasil/fome-no-brasil.htm

Outro fator complicador na fala do presidente, que mostra total falta de compreensão sobre o lugar que ocupa, foi a crítica às políticas públicas de distribuição de renda dos presidentes que o antecederam (aqui pode-se destacar o bolsa-família do ex-presidente Lula que contribuiu para tirar da extrema pobreza, milhares de pessoas), pois segundo o atual presidente o que faz o sujeito sair da pobreza é o conhecimento. Pois bem, até concordo, agora falar isso sem apresentar proposta no que seria o fundamental para sua efetivação que é, a meu ver, a educação, esvazia o seu real significado. Não se tem visto proposta para uma educação pública de qualidade que possa sustentar a fala do presidente.

À guisa de conclusão pode-se afirmar que a fome é um fato que afeta inúmeras pessoas no Brasil e no mundo. Concordo com o presidente quando diz que no Brasil não se come bem, claro, pois o país apresenta uma horrorosa distribuição de renda, educação parece que quase sem rumo. Falar que não há fome no Brasil é desconhecer totalmente a realidade do país, dizer que as pessoas comem mal e não apresentar nenhuma proposta para que as pessoas tenham condições de comer bem, não contribui em nada para melhorar a vida das pessoas que vivem em situação de total vulnerabilidade, abandonadas, sem terem ao que e a quem recorrer nos rincões deste país.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

NA PERIFERIA

Por Alexandre P Bitencourt

Um dia desses resolvi andar por algumas ruas da periferia de São Paulo, é uma atividade bastante interessante, dado o fato de você ter que traçar intensa disputa com calçadas na maioria das vezes inexistentes e/ou malconservadas ou optar por disputar lugar com os carros nas ruas, essas nem sempre estão em estado de conservação adequado, pois quando não existem buracos, há aqueles buracos mal tapados, aqueles que são tapados e que fica parecendo uma lombada, mas claro, sem sinalização. Até aí tudo bem, essas questões já estão introjetadas como parte do cotidiano das pessoas, que parece não fazerem mais diferença, até porque existem outras demandas urgentes, que talvez nunca serão resolvidas, mas se pensa por aqui que serão. Como, por exemplo, um melhor atendimento à saúde, educação, moradia, transporte melhor, entre outras.

Nessas minhas andanças encontrei numa rua uma cena, digamos que tragicômica.

A imagem seguinte talvez represente melhor do que se eu tentasse descrever aqui, o que vi. Uma simples leitura de alguns elementos representados nela podem mostrar um pouco da vida na periferia, como as pessoas são tratadas por essas bandas. Mas enfim, o objetivo aqui não é me alongar na descrição da imagem, até porque, ela carrega elementos passíveis de significados, por isso passo aos leitores. 


E assim segue a vida na periferia, na esperança de que um dia as coisas mudem por aqui, que situações como a representada na imagem, realmente, desapareçam.